Rafael Aboud Piovani

Rafael Aboud Piovani  é “Pajé” e mora no centro.

Conceituação da Obra

Desde a década de 50 com Robert Rauschenberg e o expressionismo abstrato o suporte artístico, especificamente o da pintura, começou a ser entendido de outra maneira. Surgiram questões que desenvolveram e abriram uma nova gama de possibilidades para o trabalho pictórico (inclusão de materiais tridimensionais na tela por exemplo), trazendo à tona uma discussão muito presente na arte contemporânea e no pensamento artístico desenvolvido ao longo do séc. XX; o que é suporte, como ele se apresenta em relação ao trabalho artístico e até que ponto existe essa separação? O trabalho apresentado aqui, dialoga com esses elementos de discussão e apresenta uma nova maneira de entender, tanto o suporte, como a pintura em si.

As obras são produzidas com tela e tinta acrílica, guache e óleo ( elementos básicos da produção pictórica). A pintura é feita sem que a tela possua um chassi para, depois que terminada a aplicação da tinta sobre ela, a tela seja dobrada, escondendo a pintura feita, e receba uma nova  pintura. As dobras não são feitas de maneira perfeita pois a tela possui uma resistência as dobras , devido ao material, fazendo com que ela  se prenda em certas partes. Sendo assim, as pinturas que vão sendo feitas são escondidas porém, não por completo. As bordas da tela e , às vezes pedaços da pintura feita, se mostram. A cada dobra que vai sendo feita, a tela começa a oferecer mais resistência.

Aqui, o trabalho caminha de duas maneiras diferentes: uma opção é a de pintar a tela e dobrá-la sem que a tinta seque. Isso traz certas conseqüências para o trabalho. Primeiro, se o trabalho for re-aberto depois de finalizado  (após a última camada de tinta que ficou por cima estiver seca) dependendo do tipo de tinta, e da mistura feita para obter as cores, a tinta aplicada dentro do trabalho pode ter secado ou não. Isso cria dois tipos de conseqüências. Se a tinta estiver seca, ao ser aberto, o trabalho oferecerá mais um tipo de resistência, porém, dessa vez, com o “ espectador” que o estiver abrindo. As partes grudadas, quando abertas, rasgarão e criaram formas e imagens que nem eu vi, formando um novo trabalho. Se a tinta não estiver seca, o trabalho oferecerá outro tipo de resistência ao   “ espectador”, que será a de manejar a obra sem se sujar, ou “ danificá-la”. Os trabalhos construídos para serem abertos geralmente  lidam com a espera da secagem da tinta para que assim, quando abertos, não grudem nem tenham a pintura produzida nela danificada ou modificada. Desta maneira o embate do espectador com o trabalho seria mais simples. Ele iria se defrontar apenas com um trabalho pronto. Ao possibilitar a abertura da tela, a obra sofre uma mudança muito significativa que é a de libertar, ou, contar para o espectador o que ela escondia. Nesse momento a tensão ( zona de risco) que ele possuía (a dobra e o esconder uma ou mais pinturas) é desfeita e o trabalho perde força.   Geralmente, os trabalhos feitos com a tinta ainda molhada são produzidos para que permaneçam fechados. Desse modo, seriam expostos na parede, como uma pintura tradicional, não possibilitando ao espectador mexê-los. O trabalho contém um elemento muito forte, que é a ação de esconder a pintura produzida. A ação de dobrar a tela com uma pintura dentro não acaba após a dobra ser feita,  ela se permeia e continua, a partir do momento em que o espectador se defronta com o trabalho e não tem a possibilidade de ver o que existe dentro dele. Essa ação- momento dá ao espectador muitas obras diferentes; a primeira é a pintura-objeto em si que, com todas as dobras e camadas de tinta ganha um novo corpo onde se ve massa, peso, volume, a ação de dobrar e a ação de resistência constante da tela, somado aos elementos de cor que são mostrados nas bordas de cada dobra. A segunda é a obra que o espectador tem a possibilidade de construir em sua mente ao se deparar com um trabalho que ele não vê. Ele passa a imaginar, ou tentar conceber o trabalho em sua mente. Voltando à discussão iniciada no inicio do texto, o suporte, neste caso, é o trabalho e o trabalho é o suporte. Não à divisão entre um e o outro. Isso traz a tona todas as discussões iniciadas pelos expressionistas abstratos na década de 50 e evidencia uma mobilidade e um desdobramento de opções para a pintura contemporânea.

O que são as dobras: as dobras são uma ação além da pintura, um dispositivo que possibilita um canal de abertura para um discurso contido não apenas no objeto artístico, mas também no que consiste a produção artística contemporânea. Ele (o dispositivo, a dobra) coloca a obra em uma zona de risco onde não se sabe realmente o que é o trabalho (uma pintura, um objeto) e da margem para entendimentos diferentes que, mesmo assim, caminham por um mesmo discurso, sem sair desta zona de risco, criando a tensão que produz um raciocínio sobre o tema do trabalho.

                                     

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